domingo, 13 de abril de 2008

...

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro

10 comentários:

  1. (...)
    Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
    Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
    E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
    Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
    E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
    Átomos que hão de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem (...)
    .
    sempre gostei mais de Álvaro de Campos. o futuro é um resultado de parcelas ou então mais uma parcela.

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  2. esse é dos melhores poemas que anda praí *-*

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  3. Sempre que aqui venho, tenho motivos para sorrir e saio sempre com algo sobre o que pensar... Thx!
    Acho que ele se esqueceu de uma coisa: quando algu�m parte, deixa sempre uma marca em algu�m... E apesar de a Primavera continuar a vir e o verde das �rvores continuar a ser o mesmo, h� coisas que mudam e nunca voltaram a ser as mesmas.
    Beijo*

    P.S.- Estou de volta...

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  4. Caeiro, Reis, Campos... Pessoa, enfim. Um génio!

    beijinhos para ti :)

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  5. É estranho pensar que a nossa morte nada vai provocar no mundo. Provocará algo nas pessoas que nos são próximas, provavelmente, se as tivermos.
    Mas a natureza vai continuar igual. Mesmo que a tenhamos destruído de forma irreversível, ou tenhamos feitos descobertas miracolosas de como a salvar, o seu ciclo irá sempre existir.
    A sua beleza vai continuar e isso faz-nos feliz porque sabemos que ela não desaparece connosco.

    beijinho*

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  6. Comparada à imensidão do Universo, a nossa morte é tão insignificante... Somos praticamente gotas no oceano! Mas por vezes ponho-me a pensar acerca do sentido da nossa existência. E aí penso que todos somos seres únicos e fazemos ou possuimos algo que faz a diferença enquanto vivos. Depois da morte essas mudanças terão consequências, positivas ou negativas, para as pessoas que nos eram mais próximas, para a humanidade ou até para a Natureza.
    Cada ser é um pequeno Mundo e a sua morte não será indiferente...

    Gostei muito do post e deste espaço . Parabéns!

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  7. Adoro Caeiro!
    E o teu blog também!
    I'm back*

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  8. E viva Caeiro! Se bem que para mim o maior génio é Álvaro de Campos.

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  9. borboletasonhadora-re30 de julho de 2008 às 17:32

    Fizeste-m arrepiar, uma lágrima espreitar, momentos relembrar, esperanças realçar e vontades superar....
    encontro ('finalmente') alguém verdadeiramente parecido comigo!
    parabéns pelo blog,
    parabéns pela escrita,
    parabéns pela vida,
    parabéns pela dedicação,
    parabéns pelo sentimento!
    e obrigada pelos sorrisos!
    (",)

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