quarta-feira, 20 de julho de 2016

decepemo-nos

Dois mil anos depois. Mil anos depois. Quinhentos anos depois. Torres no deserto, ilhas em forma de palmeira, chineses ainda ricos - mas agora de dinheiro, ocidentais a comer pimenta que não têm, guerra santa, cabeças cortadas, machados e facas. Tudo diferente. Tudo mais ou menos igual.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

do remorso

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!


*

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há “papo-de-anjo” que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...
Alexandre O'Neill

sábado, 5 de abril de 2014

Eles existem II

"Paraquedista escapa por pouco a meteorito"

http://www.dn.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=3795528&seccao=Europa&page=-1

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

eu que nasci em 1984

os Winston Smith deste país andarão cheios de trabalho. lufa lufa constante. aqui fica, até que a não apaguem: http://www.portaldealbergaria.pt/2014/01/matou-se-frente-a-autarquia-onde-dormia-ha-semanas-a-suplicar-por-um-teto/

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

o Mar enrola na areia

serão os assobios a salvar o mundo. outra vez.

ainda os inteligentes

teimam em não acabar.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

a falta que nos faz um Almada



pim!

será um pássaro?

há 12 anos havia um desgraçado qualquer a cagar às 9 da manhã. o desgraçado levou com um avião em cima. ah! a ironia.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

maio

se houvesse uma prateleira para guardar concertos este havia de estar lá. e depois pensar que dez, vinte, trinta maios depois ainda faz sentido haver um dia primeiro. porque ainda há sangue, manadas, vampiros e carraças. e há palcos à beira lago-rio-mar-qualquer-coisa. e há dias assim.


segunda-feira, 10 de junho de 2013

éter



ó minha benévola terra
se eu te pudesse beber,
pacificar, fazer guerra,
sentar-te à mesa e escrever.

ó minha terra de arados
de tardes lentas e quentes,
e luz que mostra parados
rebanhos incandescentes.

quando passo de automóvel
esqueço-me de onde moro
porque sou meu lar imóvel.

o rádio sempre a tocar
um coração avariado
que não posso desligar.

Rui Lage

domingo, 10 de junho de 2012

das anologias com mangas e máquinas de secar ou o dia que não o é do país que ainda o quer voltar a ser

Como vais tu morrer
em portugal
que te assenta de igual modo à camisola
que lavaste no programa errado;
Como vais vender os teus versos
ao preço da chuva
num país de cheias
e lágrimas fáceis;
Como vão as tuas palavras
arder no coração daqueles
que vêem as florestas
sucumbir ao fogo
todos os verões;
Como vais ficar em nada
como o gelo no whisky
no copo da mulher
que o teu marido ama;
Como vais, tu, abrir os braços
se só já tens penas
como o pobre Garção?

Ana Paula Inácio

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Fe

flor. uma cortina verde-castanha-riscas à frente do palco arredondado, antes branca. é o mundo grande-pequeno visto do pássaro de ferro com asas de ferro também.

onomatopeias agora. clac clac, vrrrrr vrrrrr, pfffff pfffff. vira um pouco e torce-se a vista. tanta volta para chegar ao mesmo sitio.

começo.

a flor-conjunto-de-átomos e os povos das (re)encarnações ou (re)florações se é que as acreditam é que devem ter razão. eis. é o ferro desta vez. ferro espada, ferro sangue, ferro cheiro, ferro cor. boi, a chave.

do alto, a cortina branca foge, abre e deixa perceber a outra, a tal verde-castanha ora riscas ora quadrados ora o bonito não padrão. há mais debaixo. terra. o mundo por baixo do mundo e lá, lá fundo, a emergir, o ferro. o mesmo do sangue nosso e das ervilhas, o mesmo da ponte feita por medida, o de que é feita a cor que o pinta, o dos barcos, o de quase tudo.

flor. é de ferro o xilofone que toca melodias flor e horas no por entre o pó de um dia de sol.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Phaseolus vulgaris

Imagina-te de novo de volta à escola. O quadro preto em frente, a cruz por cima, um cristo magro e pintalgado de verde a olhar para o vazio.

Dois mais dois são quatro sem nunca se explicar ou perceber bem porquê. Números são números e estes não enganam. Tudo isto na altura em que havia um senhor de fato preto às riscas a convencer-nos que o também o algodão podia ser um número. "Não engana" dizia. Falava do algodão.

Um frasco. Protocolo (palavra nova só mais tarde aprendida já em quadro branco, não melhor que o preto). Material: àgua, armário, frasco, algodão, feijão e sol.

Depois era o feijão no frasco e o ridiculo de tudo aquilo num lugar onde depois das quatro nos rebolávamos pela terra.

Era na terra que a realidade fazia mais sentido. Um dia despontava um pouco de verde, no outro uma outra folha, regar, mais uns centimetros dia após dia. Esperar. Devagar até ao grão final.

Lição primeira: é preciso tempo;
Lição segunda: a história do João pode ser verdade numa tarde de sol;
Lição terceira: por mais que repetidos sejam os gestos nunca o resultado é o mesmo.

Três lições num feijão. Hoje em dia já não devem aprender estas coisas na escola. Muito menos terão terra para a cheirar molhada.

Fim.

Irrita-me a urgência dos tempos mais modernos que os do senhor Charlie. Vi, sem ver, alguém chorar por não ver um filme no dia da estreia.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

dos impérios que não caem




sonhei esta noite com o FMI. fazia sol. estava ali na praça do imperio e eram cinco. iamos reunir nos jerónimos. escorriam restos de marisco pelo canto da boca. alimentam-se bem, pensei. acordei depois. nem tempo tive de lhes dizer de quem é a culpa de tudo isto. dos espelhos. os espelhos pendurados pelos cantos que fazem as pessoas sorrir mais para elas do que para os outros. eles que venham. os impérios não caem. talvez seja por isso que se pede pão de maneira igual em mértola e tokio. e somos maiores. maiores que eles mesmo que debaixo do braço tragam pastas ruças pelo tempo e cheias de notas. é bonita a nossa terra. e tem também jacarandás. e barcos. e mar. e um império em forma de praça. e o outro.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

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domingo, 5 de dezembro de 2010

a distância lá no muito alto mede-se em pés

Quatro e meia da tarde. A cidade grande aos pés. Homens formiga e carrinhos de brinquedo. Da varanda vejo o longe pintado nas latas dos aviões que vão passando, como uma maçã de Carrazeda de Ansiães, vejo o Tejo já sem falar espanhol, consigo ver a outra banda até em dias como não hoje, de cinza e água caída em gotas.

Sopro o café vindo sei lá de onde. O cheiro quente do grão abafa o de alguma gota de suor caída meses antes. Quero que seja do Brasil, dá-me jeito, até porque é fácil de imaginar com a cabeça do Rei um pouco à vista. É novo. Soube que fez cinquenta anos há pouco tempo.

Arrefece, não gosto de café quente. Tic-tac e volto à cadeira. A partir de agora é China. Os chinesinhos alinhados de cara igual para um dia igual ao outro igual ao outro igual de cara igual a colar pedaços de ouro com colas estranhas. Os computadores são feitos de ouro sabias? Também de silício mas isso seria outra conversa que iria terminar num vale. Pena não ser o vale do Ave. Pena que por lá já não se transformem partes de ovelha em almoços e camisolas. Talvez em almoços ainda. Por enquanto. Tenho os pés aquecidos por três putos tailandeses cheios de fome e tosse convulsa. 

Tal como a cerveja, o café é um diurético. Carrego no botão e imagino a tainha de boca aberta para a fotografia. Mais uma semana e a capital do país onde vivo deixará de ter os esgotos ligados directamente ao rio. Coisas que o progresso faz. Não sei se alguém pensou na desgraça dos peixes, falta-nos o pregador Vieira.

Suspiro. É tarde. Na rua o queixume de sempre. Ou faz sol ou frio, acaso chove, nevar, isso, já é raro. Uma desgraça, no fundo. Dizia o poeta que “não importa sol ou sombra” mas a verdade é que tudo importa demais. De duas ribeiras nasceram as duas principais avenidas da cidade, sabias? A da Liberdade, liberdade, fica melhor assim com letra pequena e a Almirante Reis, o homem que com medo de morrer se matou sem que fosse preciso, a vergonha é uma coisa fodida. Eram ribeiras as avenidas. Teorizo que talvez as pessoas se assemelhem a água, eventualmente tem que ver com os setenta e tal por cento, basta um olhar pouco atento para ver onde se vão estendendo os corpos que pouco já vão devendo à outra parte do mundo, e a esta também, afinal. Lá estão eles nas ribeiras antigas, nas margens, a confluir lentamente para baixo, cada vez mais para baixo, fundo. Diz-se que no dia em que um dos elefantes fugir do zoológico poderá passear por baixo da rua Augusta sem grandes apertos. Dos corpos na margem digo que não gostam de maçãs. Até os esfomeados têm direito a ser esquisitos, percebo-os, mas deixei de dar chocolates.
Hei-de aprender a dizer alguma coisa em Indiano.

Nem tudo é mau, desenganem-se os que nos querem dar como perdidos. Temos agora também blindados. Dão um jeito enorme para as cimeiras. Podem dar jeito para quando numa eventualidade desmentida por todos os quase mil anos de história o povo pegar em tudo o que tiver à mão e marchar rumo a qualquer lado (guardo num postal a preto e branco memórias bonitas de outros tempos no largo do Carmo) para espetar uma facada nos organizadores desta excursão reles prometida para o céu mas onde pelo caminho apenas se vêm placas a indicar o abismo. 

Já comprei o pão para a noite. Dezasseis cêntimos. Trinta e dois escudos, um pão. Ainda puto, levava cinquenta escudos para uma manhã de escola, cem para o dia todo. Pão, sumo, batatas fritas e rebuçados. Já fui rico.

Ainda não sei dizer uma palavra em Indiano, apesar de ter mais indianos que Portugueses como vizinhos.
Perdi a fome com tudo isto. Antes de ir sonhar com a paz nuns braços pequenos de sorriso aberto vou à janela olhar para a lua escondida pelas nuvens. E lá, na lua que não vejo, milhões de olhos reflectem luz e sonhos também. Talvez maiores que os meus, que os nossos todos juntos. 

Sete andares abaixo, os homens parecem menos formigas e mais humanos. Coisas piores, portanto. Quase todos. Quase…

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

cinco

a gota de água à escala da formiga. depende da formiga, depende da água. a descrição da gota de água, separada de todas as gotas de água que são a chuva, observada à escala da formiga. depende, ainda, da água e da formiga. trocar a formiga por aranha. muda o quê? muda? trocar a água por pó. grão de pó do meio dos olhos de um beduino. camelo. baba.

agora a sério. não sei porquê mas engano-me a escrever a palavra água. troco o acento. assento. àgua. brincar. com as palavras também. livro? riso encolhido. nomes estranhos. de novo. agua. o salazar caiu de uma cadeira, o salazar é uma espátula, os cavacos queimam-se na lareira. o cavaco é de pau. que se foda o cavaco. pim!. (obrigado Almada)

tempo

o tempo

o tempo à escala humana e do universo. à escala dos milhões de planetas e homenzinhos verdes talvez azulados. sei lá. o tempo à escala da humanidade e da vida. gota de água. formiga. cronómetro. pessoa. 

acordar

o homem vestido de branco usa sapatos vermelhos. nas colunas faz frio. vendem-se dinossauros dados. o tempo. dinossauros no seculo XXI. dragões são dinossauros com asas que cospem fogo a pilhas. o fogo dos dragões não serve para aquecer mãos. mãos aquecem mãos. olhos são espelhos-porta e o coração é mais que algo bom para arranjar de cebolada. soubessem as tainhas de tudo o que se lhes passa por perto. soubessem elas... 

o tempo à escala humana. cinco meses de humanidade são pouco mais que mortos e vivos contados em estatistica bonita. cinco meses de humanidade. suspiro. mas a minha humanidade é maior que a do mundo. é a minha. egoista. egoista. outra vez egoista. cinco meses. não quero saber dos minutos. prefiro ir juntando os segundos no bolso, junta-los com os barcos e os pés e os grãos de areia e as marés vivas do tejo à uma menos vinte e os peixes artistas e os poços mágicos e tudo tudo tudo. sei de uma humanidade parecida. sorriso. sei de um rio ribeirinho fio de água que até uma formiga seria capaz de atravessar.

é outubro. dia 13.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

de um son(h)o na outra banda

há um rio. dizem-no grande mas a conversa das medidas soa-me a falso há já muito tempo, nem sei bem porquê. ou talvez saiba, de cada vez que a espécie de jangada laranja recolhe as cordas de terra. ou isso ou o bater constante de ferro (adivinhar a cor. do ferro). os comboios são de ferro. também de plástico e esponjas e coisas que pouco importam para isto de rio e medidas. a ponte é de ferro.

tenho um qualquer problema em organizar datas, mas ainda sei quantos dias demora a lua a dar a volta que é a volta que a terra dá à lua ou uma qualquer espécie de vice-versa ou isso mesmo. vinte mais oito. e sei de plataformas de madeira por debaixo da cor. e de subir carris. e de putos no meio da rua em vésperas de Santo António. e de muito mais coisas. o macaco (?) na parede, por exemplo.

e o rio é grande. assim dizem. é grande. grande. mas tão pequeno. pequeno. minusculo. ribeiro saltado a passo na vontade de um estender de mão. as mil e uma leis da hidraulica condensadas em nada. o rio é um fio de cabelo feito água. o rio está ali mas parece nada. o rio é grande. há, contudo, coisas imensamente maiores (uma palavra de quatro letras apenas é um bom exemplo).

sexta-feira, 23 de julho de 2010

também de um relvado sintéctico algures no oeste por entre os moinhos que D.Quixote não viu

são dias. são histórias e são horas a pingar histórias no correr dos dias. é qualquer coisa assim ou algo parecido. sonhei outro dia com um alfarrabista do tempo. talvez seja profissão de futuro. um pouco de mil  novecentos e catorze e bancos de palha se ainda houver. alguns cêntimos, ou escudos, talvez reis, dinheiro romano, azeite grego. tábua de barco. colinas trilhadas por carris e pés.

o tejo ja não tem canoas, o que é uma pena. tem tainhas e merda fresca ao fim da tarde quando a maré está baixa. devia haver qualquer coisa em atravessar o tejo numa canoa. se bem que o barco bebedor de nome serve bem para ver o lençol estendido cada vez mais perto. pontos de luz. luz.

ainda tenho uma aranha.

tenho uma aranha pendurada no tecto. tenho uma teia de aranha pendurada no tecto. estou em crer que a dona se passeia pela casa enquanto não estou. comem formigas também, as aranhas. deve ser por isso que teimo em não limpar as migalhas espalhadas pelo chão. ou por qualquer outra coisa.

seja como for, gosto de tapetes que não o são.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

e uma nuvem

"Vem por aqui" -dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom se eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
-Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: "vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
-Sei que não vou por aí.

José Régio, Cântico Negro

sábado, 19 de junho de 2010

onomatopeia

linha. linhas. palma da mão. escasseiam as palavras mas por vezes não há muito que dizer. o corpo fala. os corpos falam quando as letras não saltam dos dedos.

alfama é linda, a bica é linda. lisboa é linda. o bom das cidades é que são muito mais que isso. mais que todas as palavras e imagens juntas. a minha varanda é linda. e o sol que morre mais a sul também merece ser (re)visto. 

podia escrever da luz no branco das paredes e do chão. do reflexo azulejo e da brisa na base do pinheiro mais alto que as muralhas do castelo. a cor que não é vermelho nem encarnado nem qualquer outro tom de vinho. sangue-de-boi. sangue-de-boi, como o sangue dos bois touros caido na praça (des)feita  (também) cinema. bifanas de pato. o cheiro das bifanas de pato e a fita a rolar. era uma vez uma casa que tinha um arco e onde morava um cego...

bancos de jardim. verdes. quase todos. havia uma princesa nas mil e uma noites, não me lembro de ler acerca de unhas cravadas na pele.

[barulho-melodia-de-ferro-e-borracha-e-oscilações-metálicas]

alcântara, القنطرة, al-qantara, a ponte, é linda.

tenho uma varanda linda e o fado não tem de ser triste. gosto de tangerinas e de contar as horas pela oscilação das marés. gosto de desenhos. gosto de dias de sol e de chuva. gosto da paz dos dias que nascem devagar quando a luz entra pelo buraco aberto por entre as telhas já senhoras de muita chuva caida. e dos sorrisos que surgem nos dias que nascem devagar quando a luz entra pelo buraco aberto por entre as telhas já senhoras de muita chuva caida. 
linha
s. f.
1. Fio para coser.
2. Linho.
3. Fio de pesca.
4. Fila, fileira, renque, direcção!direção. Raia.
5. Arame para comunicações telegráficas ou telefónicas.
6. Via-férrea.
7. Meio de comunicação entre dois pontos.
8. Traço geométrico que representa uma direcção!.
9. Equador.
10. Série de letras numa direcção!.
11. Cada um dos traços horizontais do papel pautado, do pentagrama, etc.
12. Traço, risca.
13. Trave horizontal em que assentam as pernas da asna.
14. Linhote.
15. Frente das tropas em ordem de batalha.
16. Duodécima parte da polegada.
17. Sinal gráfico com que em matemática uma letra se distingue de outra (ex.: p + p´).
18. Série de gerações numa família.
19. Fig. Categoria; norma, regra.
20. Tip. Filete com que se divide uma página em colunas.

linhas
s. f. pl.
21. Infrm. Carta.
22. Feições.
23. Veios na palma da mão.
Tecnol. em linhacom ligação directa!direta ou remota a um computador ou a uma rede de computadores, como a Internet. = on-line
em fila.
Fís. linha isóbarao mesmo que linha isobárica.
Fís. linha isobáricalinha que passa pelos pontos terrestres em que a amplitude média das variações barométricas é a mesma. = isóbara, isóbare, isobárica, linha isóbara
Fís. linha isotérmicaa que passa pelos pontos de igual temperatura média anual.
Fís. linhas climatéricasas isoquiménicas e as isotérmicas.
ter a linhater o porte ou o aprumo conveniente.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

daquele país que faz fronteira com Espanha

Surge-me, de quando em vez, aquela imagem heroica (ou egoista) do Luís Vaz a nadar só com um braço e com o Portugal na mão mais seca. 

Inquieta-me imaginar o Portugal a ser salvo daquela maneira. Inquieta-me imaginar o Portugal a precisar de ser salvo. Inquieta-me. Inquieta-me também o modo como algumas pessoas teimam em confundir o género quando agradecem. Isso e o facto de impermeabilizarem os bancos de jardim.

Chagas, quinas, castelos, o mundo em forma de esfera. A mania das grandezas é demasiado nossa para que a possamos ignorar. Deve ser por isso que ainda cremos num cavalo branco a aparecer do nevoeiro. O Sebastião mais velho do mundo. E nem quinhentos anos passaram...

Mas o que eles não sabem é que o Portugal ainda tem quem goste dele.
Já foste rico e forte e soberano,
Já deste leis a mundos e nações,
Heróico Portugal, que o gram Camões
Cantou, como o não pôde um ser humano!

Zombando do furor do mar insano,
Os teus nautas, em fracos galeões,
Descobriram longínquas regiões,
Perdidas na amplidão do vasto oceano.

Hoje vejo-te triste e abatido,
E quem sabe se choras, ou então,
Relembras com saudade o tempo ido?

Mas a queda fatal não temas, não.
Porque o teu povo, outrora tão temido,
Ainda tem ardor no coração. 
Saúl Dias

domingo, 6 de junho de 2010

dias úteis

é domingo.

divago acerca do porquê da aparente cor da água vista do cimo da serra. incolor, insípida e inodora. aprendi assim na escola. por vezes desconfio das coisas que lá me ensinaram. era para beber. o mar não se bebe. dizem. irrito-me com o que dizem. pergunta: os olhos comem?



acho que sim. depois há castelos no alto e estradas que levam aos castelos a serpentear pela encosta. viagens. fins de terra ventosos e estradas que não se sabe muito bem onde vão dar. dias de sol. úteis.

domingo, 30 de maio de 2010

dias

os dias são coisas com vinte e quatro horas. as horas são coisas. os dias dividem-se neles mesmos, dias, e nas noites. as horas têm coisas dentro, segundos. os segundos dividem-se até ao infinito. tic-tac.

os dias começam quando o sol nasce. na verdade o sol não nasce, mas os dias começam. pela definição de segundo as horas não passam.

gosto de aranhas, já devo ter escrito. gosto delas quando se passeiam pelos cantos. e gosto dos dias que não o são por serem diferentes disso mesmo.

sábado, 29 de maio de 2010

arrabalde

diz-se que pode passar um elefante debaixo da rua augusta. coisas que poucos sabem, também não é fácil descer ao esgoto. e se fosse, saberiam?

lembro-me do elefante e da lua feita lençol no espelho rio. e quantos sabem do estender de luz à frente da praça? e do resto? das sardinhas penduradas entre telhas e do macaco da esquina.

colam-se os passos ao chão. bancos de jardim. uma pergunta: os bancos das praças são bancos de jardim? importa pouco no desenrolar das horas. correm. as horas e os passos. 

cais. talvez seja a palavra. dois e o espaço entre eles. andam a fazer um jardim na ribeira das naus.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

chinelos

A normalidade. Anormalidade. 

Uma letra é também uma palavra? Sei agora da variância da água e do sal ao longo do muro. Maré. Não sei ainda do dormir dos pombos nas paredes das igrejas. A questão é: dormem sempre no mesmo sitio ou alternam? Atormenta-me muito mais que a subida do IVA. Outra: porque é que os cães teimam em cair nos poços?

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Ammophila arenaria

mar. as gaivotas têm nome e direcção no vôo. quase todas. era uma vez.

coisas que toda a gente sabe. o calcário é diferente do granito. coisas que se notam entre os dedos dos pés. a ela, a gaivota, voava só para a frente, diferente das outras. dava a volta ao mundo sempre que queria voltar onde tinha estado. a volta ao mundo. há caçadores na patagónia. a gaivota levou um tiro. 

por vezes julgava perseguir o sol. outras julgava ser perseguida. ocorreu-lhe nunca que o girar da terra pode ser traiçoeiro. nem todos os tiros matam. fazem sentir o cheiro a aço e pouco mais. alguns. a imagem sonora dos chumbos a cair numa tigela de sopa metálica é algo que me faz roer as unhas. 

caiu. fugiu. asa quebrada, vôo novo. circulos quase infinitos agora. tempo. o tempo. viu um muro pintado de tangerina. picou o vôo.

as promoções de tinta podem ter um efeito fantástico. cor.sangue.de.boi, no caso. voava agora para onde queria, a rosa dos ventos passou a ser mais do que uma qualquer coisa aprendida na escola da praia. voltou. perdeu-se. afinal, o lugar era o mundo e não o pedaço de terra onde havia querido voar em circulos. abriu as asas. foi. em frente.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Nos pesadelos
os monstros às vezes temem que os olhemos de frente
que possamos apagar-lhes a sombra
ou acordá-los a meio da tarde
abrindo as portadas dos seus refúgios
deixando a luz avassaladora a cobrir-lhes o corpo
a queimar-lhes as pupilas remanescentes
como se fôssemos nós
os monstros 
deles.
José Carlos Barros, Os monstros

sexta-feira, 14 de maio de 2010

porque as histórias também se cantam


Sérgio Godinho, O primeiro gomo da tangerina

terça-feira, 11 de maio de 2010






ar






quinta-feira, 6 de maio de 2010

caracol

macacos nas esquinas, ou não macacos nas esquinas. eis a questão, mas não há questão, não importa. está lá o que é e é um macaco não macaco pintado de azul. e uma borboleta. e há quem saiba que lá está a olhar pelos passos vagarosos estendidos dia após dia, noite após noite. passos vagarosos e sorrisos longos.

e gárgulas sedentas de laranjas. e tudo. montes pintados de branco, as luzes longe no sangue vivo. de boi. um suspiro. dois. e no direito de.

no fundo, creio que gosto de varandas. de nêsperas também. e de nuvens a pairar, algodão.

domingo, 2 de maio de 2010

colunas

Já li mais de dez livros e ainda assim não encontrei as respostas todas. Sei que no Japão há cinco estações em vez de quatro, sei de ruas debaixo de ruas que são canos e vão dar ao lugar mais óbvio de todos. Sei como se chamam os peixes que gostam de lodo. Aprendi até quantas portas é preciso atravessar para chegar a um outro  qualquer lado, porventura inexistente.

Já li mais de dez livros, é verdade. Mas nenhum deles falava de um barulho em forma de vai.vem na ponte.cor.sangue.de.boi, nem dos personagens sinistros que se passeiam em tabuleiros de xadrez. Talvez tenha falhado algum, mas nesses mais de dez também não aprendi nada acerca de barcos com velas palito e gaivotas suspensas no ar.

Talvez tenha lido os livros errados. Mas foram mais de dez. Pergunto-me como é que em nenhum deles se descreve o porquê de a lua sorrir para uma nuvem ou, até mesmo, da inaudita vontade própria de um rádio. 

Mais de dez, não sei quantos foram, concerteza mais de dez...

domingo, 25 de abril de 2010

alguns

não sei do dia nem da hora. era inverno e quase noite. eramos muitos e eramos mil. dez. dez mil dizia-se na altura.

não sei também das queixas. talvez propinas e bolonha. sei que fui pela razão de sempre. a que não há. 

não sei também do nome da rua, hoje é Amália. sei sim de um segundo andar, ou terceiro, e sei de uma velha muito velha e vestida de preto à janela. lembro-me de um punho fechado e de lágrimas nos olhos. lembro-me disso e de ouvir que éramos muitos e sentir que ao mesmo tempo tão poucos.
 
a velha dizia força como quem parte pedra com um martelo. a velha chorava e a rua era cheia. eramos muitos, mil, dez, dizia-se.

(ainda) somos muitos muitos mil

a vida é uma merda. queixemo-nos então. queixemo-nos bem alto para toda a gente ouvir. seis lamentos por dia, um por refeição, são tudo o que basta para que isto mude.

as pessoas dantes eram tão limitadas. acreditavam que para mudar as coisas era preciso agir e viver na sombra e abdicar e ter ideias e sujar as mãos de tinta em tipografias clandestinas e fugir de guitarra às costas e escrever o que olhos ansiosos esperavam por ler. acreditavam que podiam mudar o mundo se um dia, por volta da meia noite, ouvissem uma pergunta simples na rádio. acreditavam no sempre e no nunca e em revoluções à quinta-feira. definitivamente limitadas. 

seis refeições por dia. um lamento por refeição. as revoluções que fiquem para os outros. afinal de contas, aquilo das balas pode ser chato.

sábado, 24 de abril de 2010

de uma linha de comboio enterrada na areia

e depois os barcos dão à costa. na verdade são cartilagem ou osso ou apenas tecido um pouco mais duro. importa pouco. barcos. basta um pau e uma vela para dar a volta ao mundo.

peixolho. fica o registo.

dos peixes artistas

os peixes riem no rio lilás. riem de dia e fazem desenhos de luz pela noite. é fácil perceber os dorsos virados à lua embalados pelo vai-vem infinito só quebrado numa qualquer manhã de todos os marços. é fácil percebê-los felizes a imaginar quem ainda consegue  ver desenhos no rio feitos por peixes artistas. 

a verdade é que se vê bem o mundo lá do alto. e a cidade lençol feita pontos de luz também. mais os sorrisos.

domingo, 11 de abril de 2010

varanda





quinta-feira, 8 de abril de 2010

passos

era uma vez uma senhora chamada augusta que gostava de estátuas verdes. gostava também de ver o ir e vir das marés, do cheiro a sal e de gaivotas. fez.se rua e diz.se feliz.

era uma vez um senhor chamado alberto que certo dia enquanto se distraiu no chuveiro pôs no papel aquilo que já era uma verdade mais que absoluta. mas foi ele que concluiu que o tempo que corre das nove às onze é diferente do tempo que passa das seis às oito.

era uma vez uma senhora sem nome que achava pouco simpático o lugar onde lhe mataram a filha.

era uma vez um homem chamado joão que nunca seria capaz de imaginar que o click que lhe saiu do dedo ainda no século passado seria capaz de fazer sorrir mais de cinquenta anos depois.

era uma vez um cego que via um só fio de luz  pelo canto do olho  direito depois de lhe ter acontecido aquilo naquele dia e que agora se irritava quando o julgavam mais ou menos do que uma pessoa que não vê.

e era uma vez um barco e um cais e uma estação e (também, mesmo que noutro tempo) alecrim aos molhos.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

guinness

os papeis amarelados na parede anunciam alheiras e sorrio. vem-me à cabeça a nossa ânsia de recordes e surge.me a ideia de que o senhor adolfo possa ter sido apenas um invejoso ao bater palmas quando ouviu falar dos fornos gigantes.

tendo em conta as questões técnicas, não sei se não nos pertence o recorde de maior número de judeus mortos num fim de semana. foi numa páscoa destas, algures no rossio, vai para quinhentos e poucos anos.

mais um. haverá cidade no mundo com mais nomes de santos pelas ruas que esta? chegamos a santa apolónia, vê-se o branco do são vicente que se deve entreter a ouvir a amália, abre.se o passo, sobe-se um bocado e o são pedro poe.nos um sorriso nos lábios, mais meia dúzia de passos compridos e surge a catarina, santa também. outro ponto de vista para o mesmo rio lilás e são bento ali já ao lado. pasteis em santa maria de belém, o santo antónio à espera de um dia doze já não muito distante. o são josé deixou a carpintaria e dedicou.se às ligaduras, também há o sebastião que guarda os horriveis grandes armazéns de nuestros hermanos... até o castelo não é da cidade mas do são jorge.

e quantos mais debaixo dos pés? haverá cidade no mundo com mais pedras de calçada? da nossa, a portuguesa.obra.de.arte que calcamos sem dar conta, sem quase nunca dar conta. depois aparecem os visigodos do século vinte e um de máquina fotográfica em punho e há quem os julgue tolos por fixarem a objectiva no chão com o maior dos cuidados.

do resto, é verdade que os inteligentes afirmam que das coisas subjectivas não se pode fazer medida, mas ainda estou à espera que venha o primeiro que diga não gostar da luz. quando a vir, claro está.

domingo, 4 de abril de 2010

um

aranhas, calendários, camelos de asfalto, pedras, matemática, degraus.

as palavras surgem devagar e sem outras que as liguem. talvez a argamassa da páscoa não tenha sido bem feita, agora que parece começar de novo o tempo das alheiras, versão 2.0.

ocorrem sobretudo nomes de santos. a ironia é uma coisa enorme. o antónio, a catarina, o vicente, também o pedro, a lúzia e apolónia. aparece também o sol, escadas ainda não vistas descidas quatro a quatro, as portas do primeiro e cores talvez mil. 

isto um dia há.de ser junto de forma diferente.

domingo, 21 de março de 2010

segunda-feira, 15 de março de 2010

quinze

há o seis e o sete. o cinco talvez. oito. quatro. trezentos e oitenta e dois. sete mil quinhentos e quarenta e um. números, algarismos juntos, pedaços de coisas e coisas aos pedaços.

mas quinze é mais ou menos o tamanho de dez mais cinco. medida formatada, volume aparente. 

dois algarismos. um número. falo de quilos e de vidas e do quanto as segundas cabem nos primeiros. coisas quase tão simples como a luz a desfazer.se no rio.mar. simples.

sábado, 6 de março de 2010

"farto do diz que disse
diz que viu
diz que aconteceu
diz que estava lá um amigo de um amigo
que é amigo teu
farto de ouvir
o mais bonito
o mais astuto
o mais sensível
mas o incrível
é que ao espelho eu só vejo o mais bruto
farto das mesmas queixas no mesmo caderno
farto da caneta que me leva ao inferno
farto de mim de ti de nós contra o resto do mundo
a selecção deles é mais forte
ficaremos sempre em segundo
ninguém te disse
ninguém te contou
ninguém te falou
não dá para ganhar

eles dizem
foge foge
mas eu fico
foge foge
e eu fico
cada vez mais bandido"

Manel Cruz, O canto dos homens-conto

terça-feira, 2 de março de 2010

Sim, sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobresselente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu.

Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.

E ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconsequente,
Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
De me ter deixado, a mim, num banco de carro eléctrico,
Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,
Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,
De haver melhor em mim do que eu.

Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa,
Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores,
De haver falhado tudo como tropeçar no capacho,
De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas,
De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.

Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica,
Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,
De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo —
A impressão de pão com manteiga e brinquedos,
De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina,
De uma boa vontade para com a vida encostada de testa à janela,
Num ver chover com som lá fora
E não as lágrimas mortas de custar a engolir.

Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado,
O emissário sem carta nem credenciais,
O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,
A quem tinem as campainhas da cabeça
Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.

Sou eu mesmo, a charada sincopada
Que ninguém da roda decifra nos serões de província.

Sou eu mesmo, que remédio!...

Álvaro de Campos

domingo, 28 de fevereiro de 2010

sal

não sei o que é todo o dinheiro do mundo. ou ouro ou petróleo ou uma qualquer pedra ainda por descobrir e, agora, sem aparente valor. não quero saber quanto é. quero saber nada disso. não quero saber o que é deixar de contar trocos para o não sei o quê que há.de vir. almoço, comboio, barco, café, pão ou cerveja.

quem já viu matar um boi sabe de que cor é o sangue, quem já viu a cidade do alto sabe de que cores se pinta, quem se assusta com os pombos sabe que eles existem, e quem já leu pelo menos um livro na vida sabe que em alguma das páginas haverá pelo menos um centimetro quadrado de papel em branco.

não sei o que é todo o dinheiro do mundo. não quero saber. sei de sorrisos e palavras e da lua que hoje é cheia. sei de azulejos verdes nas paredes e gatos malhados na alcatifa suja. sei de mesas encontradas nas ruas e pedras nas mesas encontradas nas ruas.

quem já cuspiu ferro sabe o que corre nas veias. 

e sei, hoje, que há coisas valiosas demais para que alguma vez possam ser guardadas em cofres ou expostas em montras. talvez porque não existam. talvez por serem maiores que toda e qualquer existência. porque sim. e porque hoje recebi o melhor presente que conheci.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

coisas a fazer num futuro mais ou menos próximo


#1 atravessar a ponte 25 de abril a pé;
#2 inscrever.me na maratona para poder atravessar a ponte a pé;
#3 fazer de conta que vou correr a maratona para atravessar a ponte a pé;
#4 meter um tijolo com um selo colado e uma morada numa caixa correio;

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

onomatopeia para dedo a carregar num botão que, ao ser carregado, emite um pequeno estalido

a cidade. a outra. estendida como um lençol amarrotado. a cartografia mental embalada por passos grandes. o macaco azul numa esquina perdida e as pedras a falar por debaixo dos pés. só os outros se admiram com a nossa indiferença ao calcar, quase todos, arte feita de cubos bicolores. ingratos.

talvez cheirasse a alecrim, talvez noutros tempos, e, talvez, por isso os, nos, tenham posto ali no cimo da rua. um semi-cego de frente para um semi-louco e eis o semi-retrato do rectângulo à beira mar plantado.

o sol importa-se pouco com o que somos, a luz, essa é inteira.