sábado, 25 de abril de 2009

Trinta e cinco

E a culpa do aquecimento global é mesmo do gajo que inventou a máquina a vapor. De quem mais? Pouco importa o que veio depois, o que desperdiçamos dia após dia. As luzes acesas, a água a correr, os mil e um carros a andar para lado nenhum. Não temos culpa, não podemos, não queremos. A culpa é toda do tal homem que um dia teve uma ideia luminosa. Talvez fosse melhor viver sem motores. Era muito melhor, não haja quem duvide. Correr a Europa num carro de bois... As coisas eram diferentes, gozava-se mais...

A culpa foi toda dos gajos vestidos de verde. A culpa foi toda deles por quererem mudar alguma coisa, por quererem poder gritar na rua, por quererem poder ler. Ler, ouvir, falar. E é tão fácil agora não é? Porque só naqueles dias em que a luz falta se percebe a falta que na verdade faz. Em cada um que entrou na Cidade estava escondido um potencial currupto, era isso. Porque o sonho, o sonho não tinha nada que ver com liberdade... O sonho só tinha que ver com dinheiro, taxas de juro, spreads, bancos e offshores.

E é tão fácil agora, à distância de trinta e cinco anos dizer que estava tudo bem. É tão fácil gostar de um pobre que pobre morreu...

Porque isto é como tudo, e como dizia o senhor Fernando, há-de chegar o dia em que só há a lembrança no dia do nascimento e da morte, todos os outros serão iguais... Porque já ninguém olha para a esquina mais próxima quando diz mal do engenheiro. Ou será que olha? Será que já se olha? Será como naquela quinta famosa?

A culpa toda é daqueles que tentaram um dia mudar alguma coisa e não de todos os outros que agora que ainda podem falar, se calam. A culpa é toda deles. Ou será que é nossa? Deve ter sido bonito o dia onde os rádios poderam tocar mais alto.

do sorrir

"Found only on the islands of Oahu, Molokai, Maui, and Hawai, the happy face spider, is known for the unique patterns that decorate its pale abdomen. Scientists believe Theridion grallator may have developed its distinctive markings to discourage birds from eating it."

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Teste

Uns
Outros

Eu


feito por aqui

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Acordar

Manhã. Cinzento e o gato deixa de ser pardo. Há um gato malhado à porta e agora que penso nisso reparo que ainda este ano não vi andorinhas.

Gotas

Noite.

Um gato pardo à beira da porta. Chove. Um gato pardo à chuva... Rua. Àgua. E a falta por entre as gotas...

Porque houve dias em que chovia miudinho e os risos eram maiores...

Saudade...

domingo, 19 de abril de 2009

das caixas escondidas num sótão qualquer

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte

Natália Correia, Queixa das almas jovens censuradas

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Dilúculo

Partida ao meio. A lua.

E cá em baixo, um banco verde, casas azuis com desenhos de janelas-de-luz-acesa, garrafas vazias, latas vazias, vidros no chão, copos cheios, copos vazios. Uma brisa leve... Cinco vezes noventa e nove. O mesmo banco. Transeuntes que vão passando. Abanam devagar. Tivessem giz nos pés e o chão seria todo ondas brancas. Falo em ondas e lembro o mar. A brisa outra vez mas agora sem sal, sem o cheiro-casa que nem é meu mas que gosto.

Lembro agora o primeiro dia. Manhã de sol e a mão a tremer. Janelas de vidro. Calor. Calor. Calor. Não há longe, não há longe, não há longe...

de repente, o banco faz-se escada, a janela branca janela verde, o cigarro no chão cigarro na mão, a mulher velha homem velho, o cimento pedras, a rua largo, e, num instante breve, deixa de haver tempo e estamos de novo encostados à grossa porta de madeira no instante em que uma cara ensonada larga um "bom dia" e se prepara para a abrir.


"Não há longe nem distância"

Meia bolacha no céu. Meia bolacha brilhante no céu. E o sol a bater de mansinho nas costas.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Pequenas coisas

Diziam-me em pequeno que haviam muitos cavalos na Hungria. Talvez por lá andem mas não os vi.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Infinito

adj.
Não finito; sem fim.
Ilimitado, eterno.
Absoluto.
Inumerável.

adj. s. m.
Infinitivo.

s. m.
O tempo ou o espaço.
O absoluto.
O que a razão humana não pode alcançar.

adv.
Infinitamente.
Excessivamente.
Muitíssimo.

domingo, 5 de abril de 2009

Sol

As dores nos pés e as sapatilhas apertadas, o sono e as linhas trocadas, a porta grande e o campo maior -maior que o alcançe da vista-, os cabelos agora já feitos brancos pelo tempo. E os dias? O correr dos dias lá no meio da palha certamente seria diferente. As ruas, o acaso, o mapa virado ao contrário que encontrar o norte nem sempre é fácil. O homem do instrumento mágico e a caixa de música e as mil e uma torres... Talvez tenha sido a vontade de chegar ao céu, a vontade de chegar mais longe ainda antes de haver cêntimos de Euro. E a cave escondida, as pedras velhas, os homens que aguentam casas às costas sem nunca se cansarem...

A neve numa bola de vidro.

E é tudo tão simples como na canção...

Da mochila às costas

Nada te espanta, nada te encanta
Nada te tomba ou te levanta
Sem passar dentro de ti
Nada te gera, nada te espera
Nao ha outono nem primavera
Sem que o sintas a surgir

Tu és a escala
A mão que embala
Tomas bem conta de ti
Tu és a escala
A mão que embala
Tens um rumo a seguir

E nada te atrasa, nada te arrasa
Nem que no céu percas uma asa
Vais pegar de novo em ti
Nada te usa, nada te escusa
Mesmo se o mundo inteiro te acusa
Só tu sabes pra onde ir

Tu és a escala
A mão que embala
Tomas bem conta de ti
Tu és a escala
A mão que embala
Tens um rumo a seguir

E nada te esmaga, nada te acaba
Nada te encolhe, nada te alarga
Nada te tenta, nada te inventa
Nada te pesa, nada te aguenta
Nada te falha, nada te empurra
Nada se ri enquanto te esmurra
Nada te esfria, nada te guia
Nada te ofende ou te desvia

Nada te pára

Jorge Cruz, Nada