terça-feira, 22 de janeiro de 2008

10 Anos

Parou nas paredes, nas mesas, no velho calendário pendurado no tecto, nas conversas... Depressa demais lhe marcou rugas na cara.

As duas velocidades do tempo, para lá da porta castanha.

Ratos

O barco descola lentamente. Rumo às nuvens. Larga o mar, mar chão, e vai. O velho marinheiro ajeita as barbas enquanto no convés os ratos escorregam e caem à água. Milhões de viagens fizeram, mas nenhuma como esta. Anos e anos a navegar. Algum dia teria de marcar a diferença.

Para trás fica a cidade fantasma, um monte de casas sem vida, sem som, sem gente. Vazia, oca, suja. No jardim, julgando-se louco, o novo mendigo aprecia o espectáculo por entre dois goles de um qualquer liquido esverdeado -o lixo de uns, a posse de outros- encontrado há um par de horas mesmo à beira do banco feito casa.

Corre agora, corre sem destino, acaba de o fazer. Estrada, escadas, ponte. Voa ao lado dos ratos. Plana de braços bem abertos, bate as asas devagar. Já não respira. Morreu a sonhar.

domingo, 20 de janeiro de 2008

Leve

Leve, leve, muito leve,
Um vento muito leve passa,
E vai-se, sempre muito leve.
E eu não sei o que penso
Nem procuro sabê-lo.

Alberto Caeiro

Home

Tive em tempos uma casa na árvore.
 
Não tinha tábuas
Nem escadas
Nem portas
Nem janelas
Nem nada. 
 
Mas ainda assim era uma casa. 

Ou se calhar era só um ramo grosso.
 
Todos tivemos em tempos uma casa na árvore
mesmo que nem sequer a árvore existisse…

Um dia
ao passar na estrada, reparei que a casa tinha sido demolida. 
 
Ainda hoje
há quem diga que só se cortaram uns ramos velhos e grossos.

Paredes

"As paredes têm ouvidos", ouço dizer há muito tempo. Descobri hoje que também têm boca. E falam.

(Podiam ao menos perguntar se queria ouvir. Não queria.)

Ups!

Primeiro levaram os comunistas,
mas eu não me importei,
porque não era nada comigo.

Em seguida levaram alguns operários,
mas a mim isso não me afectou,
porque eu não sou operário.

Depois prenderam os sindicalistas,
mas eu não me incomodei,
porque nunca fui sindicalista.

Logo a seguir,
chegou a vez dos padres,
mas como eu não sou religioso, também não liguei.

Agora levaram-me a mim e,
quando percebi,
já era tarde.

Bertolt Brecht

domingo, 13 de janeiro de 2008

Os porcos também voam

Sentado na relva escurecida pela luz da noite, indiferente aos carros que passam, ainda meio atordoado pelo último zumbido do estupido verme que se apoderou da sua mente, olha o céu e tenta imaginar respostas para as perguntas que não tem.

Limita-se a ver porcos a voar num céu limpo que não a noite estrelada acima de si. Os porcos voam sempre que o homem quer... Na esquina branca onde se juntam as paredes sem cor, onde à vez se encostam corpos sem alma, a velha aranha tece mais um fio de seda. Parede, parede, corpo, parede. Anos e anos na tentativa de fazer a teia perfeita. Anos e anos, milhares de corpos, milhões de fios perdidos, partidos por quem nunca sequer os tentou ver.

Descem os porcos à terra, trazidos pela mesma imaginação que os fez subir. Os porcos não voam. Continua a aranha à procura da perfeição inatingivel. Descansa mais um corpo na esquina das almas perdidas. Acaba o cigarro. Adormece o louco na relva feita verde pelos primeiros raios de sol.

Perdido?

Quantos são os que não sabem dos óculos estando eles mesmo por cima da testa? Estão perdidos os óculos? Ou só escondidos por breves momentos?

Pergunto-me por vezes se as pessoas, por mais distraidas que sejam, podem perder o sorriso estando ele entre a testa e o queixo.

sábado, 12 de janeiro de 2008

#13

Cai depois a chuva em grãos transparentes que já não molham...

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

#12

Um sem número de virgulas do lado de trás dos olhos. Virgulas e pontos e palavras novas.