terça-feira, 18 de março de 2008

Ironia

Perguntavam-me o porquê alguns, olhavam-me de lado outros. Nunca soube explicar bem. Ainda hoje não sei. Eram tantos os que falavam nos fantasmas guardados por esses sótãos fora. Tantas vezes olhava para eles e ria ao saber que passava tardes sentado sobre meia dúzia de esqueletos. Cada qual tinha uma história, sempre diferente, pois os dias raramente são iguais... Talvez fossem valentes guerreiros Romanos, ou então vulgares mendigos sem casa.

Talvez fosse tudo mentira e não houvesse mais que terra por debaixo daquele pedaço de chão pintado a vermelho. Pouco importa, agora que já não há pão quente às primeiras horas da manhã. Pouco importa, agora que não mais cheira a café fresco, se é que o café quente pode ser chamado de fresco, dentro das paredes cor de rosa.

Nunca soube responder aos porquês, mas sei hoje que fazia sentido. Fazia sentido andar uns bons metros fizesse chuva ou frio, fazia ainda mais sentido andá-los em dias de sol. E faziam tanto sentido as palavras que na altura nunca entendi.

- Secas ou frescas?
- Sei lá eu, mas têm sido sempre frescas. Secas desta vez...

Duas semanas passaram até cair a última noite em que as viste. E por acaso, mais uma vez por acaso, antes do último gole, disseste algo que não hei-de nunca esquecer. Passaram seis anos e as flores estão iguais. As que te deram depois apodreceram na terra fria. Pena que as tivessem dado só quando já não as podias ter. Chovia há seis anos...

Nau

Os dialectos alcoólicos a meio da noite, o velho conhecido aparecido do nada com a sua garrafa ambulante logo transformada em bar fixo. A oportunista encostada ao canto do balcão qual pássaro à espera de migalhas. Tantas quantas o bolo tinha.

Depressa o sol se mostra anunciando o fim do dia. Depressa o sol se mostra anunciando um novo dia. O fim seguido do começo. Ciclo vicioso, ciclo viciado. "Porque me apetece! e depois?". E depois não há distância nem horas nem nada.(Canta e ri a menina com o bolo nas mãos). Entre a chegada e a nova partida poucos minutos passam. Bastaram, não sendo muitos.

De volta. Encontro corpos espalhados pelos cantos da casa sem perceber bem porquê. Novo acordar, novo ir. É forte o vento desta vez, forte demais. Novamente dormem e vou. Vou e volto. E ao voltar penso que se calhar tudo não passou de um sonho. Talvez tenha estado também a dormir. Talvez. Talvez o sol não tenha nascido três vezes no mesmo dia. Talvez nunca tenha sentido os degraus debaixo dos pés. Apesar de tudo tenho a certeza que sorri.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Metamorfose

A linha invisivel de querer e sentir que separa o ser de todos os outros seres que existem à volta. Por vezes esquecidos naquele alheamento tão próprio de quem por momentos se esquece que mais mundo existe para além do pequeno ponto negro que lá ao fundo dá um pouco de cor à parede branca.

Muda o mundo entretanto. O olhar preso ao ponto, a alma presa ao olhar.

Das vulgares larvas surgem, surgiram, borboletas de mil e uma cores.

segunda-feira, 3 de março de 2008

Ecos

"Se pedir peço cantando
Sou mais atendido assim
Porque se pedir chorando
Ninguém tem pena de mim"

António Aleixo

Falta sempre qualquer coisa...


Um destes dias, talvez num daqueles em que chove miudinho, hei-de inventar uma outra máquina. Por enquanto nada posso fazer quanto à materializadora de coisas vistas. Mas o impossível não existe, isso é certo e sabido, e nada me garante que, por um qualquer acaso, não haja mais que um monte de pixeis amarelados à tua frente.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

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"And I asked old Jack, "Do you remember the night
When the sky was so dark and the moon shone so bright?
When a million small children pretending to sleep
Nearly didn't have Christmas at all, so to speak?
And would, if you could, turn that mighty clock back,
To that long, fateful night. Now, think carefully, Jack.
Would you do the whole thing all over again,
Knowing what you know now, knowing what you knew then?"

And he smiled, like the old pumpkin king that I knew,
Then turned and asked softly of me, "Wouldn't you?""

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Passo

Estúpido engano este de pensar que os pés não são só nossos. Lembro-me de em tempos me criticarem o passo. Ora largo, ora breve, mas nunca o passo certo. O meu passo, sempre o meu passo.

Lembro também os dias em que as verdades absolutas eram nada mais que mentiras aos olhos dos outros, lembro tudo isso com o sorriso que se pode ter na cara tantos anos depois... Assim como recordo alguns dias, poucos, em que me apareciam certezas pela frente. Ir, ir, ir...

Falava contra o eco cruel das paredes pintadas de fresco. Ganhava forma o magro deus egipcio. O bem, o mal e a balança! Houve depois um dia em que tudo foi falso. Houve tempos para lá do dia em que tudo foi falso em que existir doía, doía demais. E doía querer e não ter, doía não poder ir. Mas a dor aguenta-se e faz-nos sentir. Transformei o não ter em não querer e o não poder ir em falta de vontade. No fundo, lá bem no fundo, continuavam a latejar os sonhos. Ir, ir, ir...

Tantas vezes a maré subiu e desceu, tantas vezes a vi depois de umas horas passadas entre carris e apostas. Tantos dias o sol se pôs. O passo. Mais uma vez o passo. Tentaram então acompanhá-lo. E acreditei que afinal fosse possível, acreditei que não poderia haver uma só medida criada propositadamente para mim. Acreditei até ao dia em que vi as cordas que prendiam as pernas. Era falso o andamento. O passo era só meu. De nada valia a vontade de o acompanhar por parte de outro alguém.

Segui sozinho o caminho, o meu caminho, por vezes sozinho demais, encontrei então à beira da estrada um pequeno monstro. Demos as mãos. Ouvi vezes sem conta as palavras que me mostrou. Ainda hoje as trago comigo.

Tempo, tempo, tempo... Passaram os dias e as gentes por mim, poucos guardei, poucos quis guardar. Eu e o monstro. À medida que os dias passavam perguntava a mim mesmo o quão justa seria a balança do tal senhor. Um deus por inteiro. Não era um semideus como se acham tantas das criaturas por este mundo fora, logo deveria ter alguma justiça em si. Morte, morte, morte, morte... Ir, ir, ir... O meu passo, eu e o monstro.

Subiram e desceram novamente mil e uma marés. Girou o mundo, cairam do frágil trapézio mihões de almas e mais uma vez pensei ser possível. Quatro pernas a caminhar lado a lado. Esquerda, direita, esquerda, direita, cadência quase perfeita. Quase. Isso. Quase, nada mais.

Sei agora mais que nunca que o passo é só meu e que a paz está no fim da linha, no fim do doce embalo da velha carruagem sem rumo. Ir, ir, ir...

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Para lá do nevoeiro

A imagem de um velho de barbas conversando alegremente com uma menina simpatica. Juntaram-se por estes dias a uma qualquer esquina por mero acaso. Perderam-se nas palavras, inventaram jogos novos e riram, riram até não haver dias nem noites nem nuvens nem chão nem nada mais que não eles.

Sem tempo (coisa que não existe nas esquinas daquela terra) esqueceram-se do poder que têm, nem mais se lembraram que deles dependem algumas almas e muitos gestos. Então o riso não parou. Nem as brincadeiras por entre os olhares de uns quantos mais personagens daquele mundo estranho. Até Baco, por norma ausente da razão, se sentou por momentos a tentar perceber o porquê de tanta euforia.

Enquanto isso, longe, bem longe, tão longe que quase perto, vagueiam noutro mundo, noutra terra, outros seres. Incrédulos. As palavras, cruzadas, quase iguais, encontradas à mesma hora. O rio com dois sentidos, a mesma água. Toca o relógio, voam as letras. E por breves instantes, os risos e sorrisos não pertencem só ao velho de barbas e à menina simpática, mas também a quem nunca deixou de acreditar que eles existem algures...

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

#16

E por meia duzia de papeis coloridos tudo se faz. Volta o corpo, fica o resto. Papoilas e memórias do pó e da falta. Falta de tudo, faltava tudo. E agora que tudo há, falta pouco.

Depois, já tudo se questiona. Para que serve um carro sem motor?

#15

Quando encontrar as palavras hei-de deixar aqui mais algumas...












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