domingo, 11 de janeiro de 2009

Dantes

quantos "dantes", quantos? quando a escola era ali ao lado e os postes de telefone ainda não tinham sido plantados. ou então, quando ali em baixo, junto ao rio, o ar era diferente, mais leve... dantes. quando os comboios eram movidos a pouco mais que vapor de água e até se podiam apanhar em andamento. e os dias em que à porta de uma qualquer tabacaria também nossa se ouvia um "Adeus ó Esteves!" -todos tivemos um Esteves num dantes qualquer da nossa vida-.

e dantes, quando um quilo de arroz custava não sei quanto, as madrugadas dormiam-se num pesado sono de inverno.

"mas tudo isso passou
foi o tempo que nos matou."

da última batida

A anestesia fraca faz tremer o corpo. Bisturi na mão. Copo na outra. Seis vidas mais uma, como os gatos.

Afogamento na piscina.

Atropelamento.

Overdose.

Acidente de carro.

Tiro nas costas.

Queda de ponte.

Seis mais uma, como os gatos. Bisturi na mão, lâmina no peito, mão no coração e à sétima é de vez.

sábado, 10 de janeiro de 2009

fm...

"Tolerância! Nós agora somos todos muito tolerantes... Cada um tem a sua liberdade, todos podemos fazer tudo -ou quase tudo- sem sermos incomodados... Interessa lá ser pobre ou rico... Com isto da tolerância agora... Temos é que ser tolerantes... E se há gente pobre a dormir debaixo das pontes não importa -tolerância- não os vamos incomodar, afinal os ricos também o podem fazer, têm liberdade para isso... É a igualdade de oportunidades..."

José Mário Branco

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Flight lesson # 2

E se a fome for muita e a escolha recair entre um pedaço de pão e um prato de sopa ou uns sapatos escolhe os sapatos pois o pão e a sopa acalmam o vazio do estomâgo mas logo acabam e descalço no meio da neve e do gelo não podes ir em busca de mais comida e depressa acabarás por morrer, com os sapatos nos pés podes.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Meias palavras

Ouve-se daqui as vozes na casa ao lado. Caem pelo tecto oco -que agora até os tectos são falsos-. Caem as palavras e uns sons de xilofone velho, mais o leve bater de chinelos no corredor que leva da varanda ao quarto.

Numa casa aqui ao lado. Sempre ao lado e tudo deixa de fazer sentido se é que é suposto haver algum em tudo isto que é a coisa a que se deu o nome de vida. Ou vidinha, que um diminuitivo fica sempre bem...

Depois, um pouco mais tarde, pego nas letras e junto-as todas. Faço palavras e deixo as frases de parte que o sentido é sempre uma coisa muito abstracta e do lado de fora nada soa como no lado de dentro -e estas coisas são já divagações estranhas aos crocodilos que caem de paraquedas em plena Patagónia- como tudo o que é visto pelo lado errado da folha de papel.

O chá sabe a verde e mel. Sabe a maçãs e canela. Sabe a tudo e a nada e os espelhos reflectem coisas.

E se é possível que haja gémeos diferentes, saidos da mesma mãe à mesma hora mais minuto menos minuto -um preto e outro branco, ou negro e mais clarinho que isto são só palavras- é para mim também possível uma espécie de contrário.

Na rua não faz sol nem frio nem chuva nem vento nem luar nem nada. Pelo menos hoje e agora que escrevo.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Redundante

E se tivesses de escolher entre uma garrafa de ácido derramada sobre a pele ou outra de álcool vertida sobre uma qualquer ferida aberta?

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Dias cicatriz

Dos dias que ficam marcados no calendário como na pele a cicatriz de cor diferente para lembrar que a ferida existiu. Dias cicatriz, como a que tenho na mão. Como os dias em que a noite chega sem a hora de dormir mesmo que o corpo anseie o descanso. Dias em que na mesa os bancos vazios ganham outra cor pela falta dela mesma. Dias em que se é nada sobre um passeio sujo. Dias em que a areia molha os pés mas nada se sente. Dias assim, sem fim, nem começo, nem sentido, nem nada.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Hands up!

"Se um dia o diabo quiser faremos o crime perfeito..."

Donna Maria, Quase Perfeito

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

"Lisboa não é a cidade perfeita"

O mondego é sempre da cor que se quer e os peixes para além de rir também saltam. 

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Tarde

Ah a frescura na face de não cumprir um dever!
Faltar é positivamente estar no campo!
Que refúgio o não se poder ter confiança em nós!
Respiro melhor agora que passaram as horas dos encontros.
Faltei a todos, com uma deliberação do desleixo,
Fiquei esperando a vontade de ir para lá, que eu saberia que não vinha.
Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida.
Estou nu, e mergulho na água da minha imaginação.
É tarde para eu estar em qualquer dos dois pontos onde estaria à mesma hora,
Deliberadamente à mesma hora...
Está bem, ficarei aqui sonhando versos e sorrindo em itálico.
É tão engraçada esta parte assistente da vida!
Até não consigo acender o cigarro seguinte... Se é um gesto,
Fique com os outros, que me esperam, no desencontro que é a vida.

Àlvaro de Campos