quarta-feira, 9 de janeiro de 2008
terça-feira, 8 de janeiro de 2008
Trono
Chega bem cedo e senta-se no seu trono de cristal. Eleva-se no céu e plana até cansar os olhos. Trono mágico que o faz invisivel. Percorre todas as ruas da cidade, observa cada beco como se fosse a primeira vez. Dia ou noite pouco importa. Invisivel como se os seus olhos fossem os olhos de outro alguém ali mesmo à sua frente. Não há som nem cheiro nem frio nem calor. Só imagens.
Paira agora quase ao nível do chão. À frente o homem das chagas, ao lado o cego sem olhos. Sobe e sonha com o dia de amanhã esquecendo que o hoje ainda não acabou. Dorme agora embalado pela neblina cinzenta. Acorda sem saber bem onde. É tarde. Desce da cadeira mágica e sente o cheiro familiar de tempos que já passaram. Ao fundo uma gaivota grita em desespero. Está frio, sente-o nos ossos. Procura, procura-se mas nada encontra. Pensa e lembra. Lembra-se de um passado não muito distante quando nem sequer ainda tinha descoberto o seu trono abandonado à beira da estrada. Jura não mais voltar a subir. Deixa o trono e segue a pé. Há-de chegar ao seu destino ainda hoje. Lembra-se. "Cheira a maresia!".
Paira agora quase ao nível do chão. À frente o homem das chagas, ao lado o cego sem olhos. Sobe e sonha com o dia de amanhã esquecendo que o hoje ainda não acabou. Dorme agora embalado pela neblina cinzenta. Acorda sem saber bem onde. É tarde. Desce da cadeira mágica e sente o cheiro familiar de tempos que já passaram. Ao fundo uma gaivota grita em desespero. Está frio, sente-o nos ossos. Procura, procura-se mas nada encontra. Pensa e lembra. Lembra-se de um passado não muito distante quando nem sequer ainda tinha descoberto o seu trono abandonado à beira da estrada. Jura não mais voltar a subir. Deixa o trono e segue a pé. Há-de chegar ao seu destino ainda hoje. Lembra-se. "Cheira a maresia!".
sábado, 5 de janeiro de 2008
Panos. Linhas. Sorriso.
E no fundo, tudo o que queria agora era poder pegar nos retalhos de pano mal cosidos e nas folhas secas que os enchem. Pegar nos retalhos de pano mal cosidos e nas folhas secas que os enchem e pôr tudo na palma da mão. Os retalhos de pano mal cosidos e as folhas secas que os enchem têm forma, claro está.
Depois, como por magia, soprava bem devagarinho e todas as linhas que estão fora de sitio voltariam ao seu lugar, os pedaços de pano soltos seriam bem cosidos e aquela linha mais especial em forma de meia lua seria reforçada para não mais voltar a ser de outra maneira.
Às vezes querer não basta, mas acreditar pode ser que ajude. E os panos estão tão descosidos...
Depois, como por magia, soprava bem devagarinho e todas as linhas que estão fora de sitio voltariam ao seu lugar, os pedaços de pano soltos seriam bem cosidos e aquela linha mais especial em forma de meia lua seria reforçada para não mais voltar a ser de outra maneira.
Às vezes querer não basta, mas acreditar pode ser que ajude. E os panos estão tão descosidos...
terça-feira, 1 de janeiro de 2008
Oco
Como se a vida fosse um jogo que aprendemos a jogar com diferentes regras, como se fosse possível haver razão no ponto em que a razão nos separa. Recordo-me de palavras bolorentas de tão antigas que são, lembro-me de ter ouvido nas entrelinhas o que não foi dito. Lembro-me de tudo isso.
Metade, dois terços, três quartos. A confiança e as pessoas medidas em fracções. O horror dos números a marcar o passo dos dias. Resta o castelo, grande, com escadas em caracol e paredes para abrir janelas, há martelos lá dentro e nos dias em que o sol se esconde logo pela manhã cheira a canela na cozinha velha sem fogão.
Em tempos orgulhei-me de saber sonhar, espero agora esquecer-me de como se faz, afinal são as razões que fazem o mundo girar.
Metade, dois terços, três quartos. A confiança e as pessoas medidas em fracções. O horror dos números a marcar o passo dos dias. Resta o castelo, grande, com escadas em caracol e paredes para abrir janelas, há martelos lá dentro e nos dias em que o sol se esconde logo pela manhã cheira a canela na cozinha velha sem fogão.
Em tempos orgulhei-me de saber sonhar, espero agora esquecer-me de como se faz, afinal são as razões que fazem o mundo girar.
sexta-feira, 28 de dezembro de 2007
Contradições
É se calhar fácil matar, pela madrugada será melhor segundo dizem alguns. Não sei se acredite. Talvez pela noite não seja tão mau assim, os gritos a rasgar o silêncio... Gritos? Há quem morra sem gritar, até quem morra sem dar por nada, sem ter dado por nada, pelo nada da (sua) vida e das vidas que lhe giravam à volta. Devem haver os outros que dão por tudo até à ultima gota de sangue que cai na lama. O mundo a girar e as mãos quentes, metálicas demais do cheiro rubro.
O corpo frio no chão quente, a lâmpada partida a enfeitar o céu, mais um menos um, mais carne menos carne, mais homem menos homem, mais ser menos ser. Na grande mesa comprida (se calhar redonda) não faltarão razões para celebrar outro dia que passou.
O corpo frio no chão quente, a lâmpada partida a enfeitar o céu, mais um menos um, mais carne menos carne, mais homem menos homem, mais ser menos ser. Na grande mesa comprida (se calhar redonda) não faltarão razões para celebrar outro dia que passou.
segunda-feira, 24 de dezembro de 2007
Natal
Dia de Natal e de lua cheia. Imagem curiosa ao fundo da rua. Haverá algures uma espécie de precipicio, haverá lá espaço também, faltará sempre um par de braços.
#11
Memórias e sonhos misturados com sorrisos de algodão e palavras mágicas. Tanto tempo, (meu Deus), tanto, tão pouco. Olho para as palavras cheias de pó e não lhes vejo já sentido, leio as entrelinhas mas não as entendo agora. Passam os dias, os meses, os anos, até mesmo as horas e o resto das medidas crueis e ingratas, crescem os metros, desaparecem os espaços.
Deviam ter-me dito que a vida também cobra juros.
Até as estações fecham quando se querem abertas.
Linhas e fios, trapos e cestos, garrafas partidas e mãos soltas por aí. Canções e contos, corridas e desesperos. Mais um dia, mais um ano, mais um minuto.
Deviam ter-me dito que a vida também cobra juros.
Até as estações fecham quando se querem abertas.
Linhas e fios, trapos e cestos, garrafas partidas e mãos soltas por aí. Canções e contos, corridas e desesperos. Mais um dia, mais um ano, mais um minuto.
terça-feira, 18 de dezembro de 2007
Dias
Nos dias em que as caras se abrem ao mundo em forma de vozes que saltam das gargantas outrora apertadas demais para poderem deixar escapar palavras, nesses dias em que as horas correm sem pressa ou sem vagar dependendo do que os olhos conseguem avistar e o coração sentir, nos chamados dias úteis, aqueles que fazem bem ao monte de átomos que somos, há pontes e jardins e praças e cores e pinceis e telas e desenhos e palavras pintadas nas ruas e ideias que voam e rodopiam tal qual a folha castanha embalada pelo vento.
Nas portas abertas onde homens de batas manchadas sorriem e olham e sentem, nessas portas que só se abrem a quem lá entra, há calor mesmo no mais frio dia do ano.
Nas portas abertas onde homens de batas manchadas sorriem e olham e sentem, nessas portas que só se abrem a quem lá entra, há calor mesmo no mais frio dia do ano.