segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Iguais

Um mundo à parte, um reino diferente. Todos iguais. Milhares de personagens frágeis em busca de um qualquer elixir mágico que lhes devolva um pouco de algo que nem sabiam ter. Centenas de batas brancas e um cheiro que se entranha no ser.

Formigueiro imenso. Trocam-se os papéis e quase rio ao pressentir a impotência de muitos que durante toda uma vida deram talvez importância demais a meia dúzia de números. Vergam-se agora ao peso das carteiras que trazem debaixo do braço.

Olham para o lado e vêm-se sós, num mundo que fingiam não conhecer. Chegados à fila da morte, tentam voltar atrás. Tarde demais. Ali são todos iguais e já não há excepcções à venda...

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Quase

Tenho saudades dos dias em que quase chovia, em que quase aparecia o arco-iris, em que o quase era toda uma vida.

Saudades de não ter de marcar hora para a consulta, saudades das visitas de médico quando o tempo se fazia curto e mole.

Saudades das palavras que quase se diziam e dos saltos que quase se davam.

Saudades de acordar quase feliz.

Barco

Pouco acima do rio, há um barco que navega todos os dias ao sabor do vento. Pergunto-me quantos dos que passam por ele todos os dias já o viram.

Indiferente, a quem vê, a quem sabe, a quem olha, a quem sente, naufraga em torno do seu eixo ferrugento.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Rumo

Gostava por vezes de escolher o caminho. Pensar e ponderar e isso tudo. Fazer o mapa e tomar as decisões de amanhã e depois. E prever as viragens, congelar as palavras, pré-fabricar os gestos.

Lembo-me muita vez dos comboios e das linhas, tão certas, tão certas, tão certas... As agulhas lá no sitio. Esquerda, direita, linha um, linha dois, linha infinito mais mil. Tudo estudado e mais que previsto, ao minuto, ao segundo...

Mas não. Habituei-me a andar a pé e a desviar-me das pessoas mais mal cheirosas que encontro nos passeios. Na hora. E tantas vezes me engano no caminho, tantas vezes perco o fim, tantas vezes vagueio sem rumo.

E é por isso, só por isso e por algo mais que não sei explicar, só sentir. E há dias em que existir dói. Há dias em que ser cansa. Sobram outros em que se percebe que a dor nos lembra estarmos vivos e o cansaço nos ensina a aproveitar a paz saida de um mar laranja e feliz.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Tempos

são velhas as canções cantadas em dias de chuva no passar das horas que voltaram a perder o passo. são estranhos os refrões das canções velhas.

e no desenrolar vagaroso dos sons abre-se uma janela algures, para que o homem de dedos já queimados pelo tempo fume mais um cigarro ao ver os putos levados pela mão para longe. para bem longe do sonho cantado agora numa das velhas canções. é verde a janela. e de madeira.

amanhece mais uma vez...

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Falhas

Mal deixaste o bibe sujo, vestiste o fato novo. Tanta foi a pressa que te esqueceste de experimentar as calças largas. Não mais te sujaste, não voltaste a rebolar no chão que os fatos são caros e a vida não está lá muito boa para gastos...

Não quiseste mais saber do que foste nem dos que foram contigo. Agora, na secretária de vidro com vista para os barcos que ao longe vão largando pequenas nuvens de fumo negro, agora que os dias não acabam mais ao pôr do sol, agora que já não te escondes no arbusto nem te atiras ao poço de lama, agora que já não corres, pensas só nas horas e nos dias, nos anos e nos meses, acumulas certezas e planos sem mais te lembrares dos momentos em que foste a pessoa mais feliz do mundo só por ter um prato acastanhado e sujo nas mãos.

Porta. Elevador. Carro. Casa. Sofá. Noticias...
"... houve um enorme derrame de crude algures no mar..."
- Onde? Sabes?
- Foi mesmo perto de ti. Não viste?
- Não reparei...

Há quanto tempo deixaste de olhar o mar à tua frente?

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Poeira

Penso por vezes no mar de acasos que surgem dia após dia. Cada palavra, cada passo, cada sonho...

Pergunto onde fica o sentido. Que sentido fazem hoje as palavras de há tantos anos atrás? A fruta apodrece, as verdades mudam. Para que foi aquele grito? A viagem, o verde a ferir os olhos mal a noite tinha caido, a certeza de ser possível. O puto cresceu, a estrada mudou, o velho quase já não fala, a casa caiu. Pouco resta da tarde quase noite em que as pessoas se tornaram tão pequenas quanto os 200 metros de longe quiseram...

E a lágrima que não caiu? O gesto preso...

Somos feitos de quê afinal?

"Sabes, não me importei nada. Não conhecia ninguém... Até posso perceber que as pessoas de lá estejam tristes e sintam dor e tal, mas eu não estou!"

Hoje

Um vazio imenso. Só um monte de osso e carne que caminha sem rumo...

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

#14

Vale a pena, vale sempre. Nem que seja só para ver o arco irís fora do céu.