terça-feira, 8 de abril de 2008

Um pouco quase muito

Eu gosto quando chove. Gosto quando chove e molho os pés na água fria. E gosto quando o vento parte os chapéus de chuva das pessoas que andam com chapéus de chuva.

E passo na rua e olho de lado quem de lado me olha.

E sinto.

E gosto quando a chuva quase molha, em dias quase perfeitos. Quase... Faltou qualquer coisa na mão estendida.

Trapo

O dia deu em chuvoso.
A manhã, contudo, esteve bastante azul.
O dia deu em chuvoso.
Desde manhã eu estava um pouco triste.

Antecipação! Tristeza? Coisa nenhuma?
Não sei: já ao acordar estava triste.
O dia deu em chuvoso.

Bem sei, a penumbra da chuva é elegante.
Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante.
Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante.
Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante?
Dêem-me o céu azul e o sol visível.
Névoa, chuvas, escuros — isso tenho eu em mim.

Hoje quero só sossego.
Até amaria o lar, desde que o não tivesse.
Chego a ter sono de vontade de ter sossego.
Não exageremos!
Tenho efetivamente sono, sem explicação.
O dia deu em chuvoso.

Carinhos? Afectos? São memórias...
É preciso ser-se criança para os ter...
Minha madrugada perdida, meu céu azul verdadeiro!
O dia deu em chuvoso.

Boca bonita da filha do caseiro,
Polpa de fruta de um coração por comer...
Quando foi isso? Não sei...
No azul da manhã...

O dia deu em chuvoso.

Álvaro de Campos

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Núvens

Viajavam em suaves nuvens de algodão doce. Durante as viagens, maiores que o próprio tempo, falavam de mundos e lugares e vidas e sonhos e tudo e nada. E riam com a única certeza de que nada mais existe senão, o agora que era só deles. Riam tanto por tão pouco.

Quando caia a noite e o azul do céu lentamente se ia transformando noutra côr, talvez mil e uma, pensavam em descer e logo desenhavam o minucioso plano de aterragem. O cálculo ao segundo, ao milimetro...

Depois, quando chegava a hora certa, e tudo apontava para que descesssem, deixavam-se ficar a ver as soturnas pessoas que lentamente se arrastavam um pouco mais abaixo deles. Tão pequenas lá em baixo.

Comiam bocadinhos pequenos de núvem mágica enquanto desciam só porque sim. Fora de horas e longe do lugar onde o tinham pensado fazer. Ao chegar ao chão olhavam um para o outro e diziam baixinho ao ouvido: "Havemos de voltar!". E voltavam, e voltaram até em dias quase sem núvens. Mas aquelas eram mais que nuvens, como eles eram mais que gente.

terça-feira, 1 de abril de 2008

#17

Chega a primavera, tempo de limpezas. É hora de arrastar a mobilia e pintar as paredes de fresco.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Tic-tac

Lentamente os Homens transformam-se em máquinas movidas à força cruel dos ponteiros do relógio. Transforma-se o mundo também.

Pergunto-me se há uns bons pares de anos alguém desconfiava que hoje até os tectos e as paredes das casas iriam ser falsos.

Dou-me por feliz por ainda conhecer gente...

domingo, 30 de março de 2008

Memória

Porque a única coisa que queria era uma palhinha. Não queria saber dos sumos que se agitavam por dentro da máquina estranha que parecia saida de um estúpido filme antigo, não tinha sede sequer. Queria uma palhinha. Queria uma palhinha para espreitar por ela e ver o mundo muito maior. Queria uma palhinha porque sim e quase não houve quem fosse capaz de o perceber.

Para que raio se quer uma palhinha se não para beber o sumo? Parece ridicúla a pergunta... Não sei quem seria hoje sem o sumo que o homem magro que continua igual uma dúzia de anos depois me deu. Uma dúzia de anos passados e lá continua ele junto à praia atrás do balcão de madeira. Já não há máquina nem palhinhas nem gente sentada a ver o mar. Há o homem e o puto, agora uma dúzia de anos mais velho.

E no fundo, nada mudou assim tanto. Desta vez para nada queria o café amargo, só a cadeira do canto onde um dia me deram um sumo e um palhinha.

Mar

Ao longe, por maior que seja a tempestade, sempre calmo. Existe sempre a linha do horizonte, mesmo que se confunda com o céu. É possível que por vezes sejam até um só, ou então não. Só um engano para os olhos.

No entanto, de perto tudo é diferente. A calma linha do horizonte ganha vida e já não há mais a vontade de pegar nela, enrolá-la num novelo e sem ninguém ver, guardá-la bem guardada no bolso.

De perto as ondas batem com força nas pedras. De perto as ondas são enormes e assustam. De perto as ondas são pequenos e inofensivos navios de espuma. De perto as ondas não existem.

Sentado na praia o velho pescador fixa os olhos lá longe no fim do céu tentado perceber o que verá de perto mais logo. Bem sabe que por mais olhe nunca saberá com o que contar, sabe ainda que mais logo irá cheirar a maresia...

#

"Visitou-me um velho amigo
Outrora solto em meu umbigo
Eu dei-lhe abrigo na prisão"

Ornatos Violeta, O.M.E.M.

terça-feira, 25 de março de 2008

O que não existe é assim

E depois há dias diferentes de todos os outros. Dias em que nem se é capaz de vez as caras que aparecem pela frente, quanto mais sentir os sorrisos que possam ter. Dias em que tudo é uma espécie de mancha verde vómito atravessada entre nós e o mundo.

Dias em que só o corpo existe, movimentos mais ou menos voluntários, só isso. Eis que então, como por magia, alguém estala os dedos e do meio de todos os sentidos perdidos na tão grande falta deles, acende-se mais uma vela, desponta mais uma ideia, fica-se a saber que lá longe as pessoas também são más e cobardes e que nada do que te conta meio mundo e pensa outro terço faz sentido.

Costuma chover no dia a seguir ao domingo de Páscoa por estes lados. Deve ter sido da falta de chuva. Há dias demasiado estranhos para terem existido. Se calhar é só um pedaço de sonho. Estas linhas nem existem fora da minha cabeça nem ninguém as poderá ler. Um sonho, isto tudo. E eu aqui. Faltou a luz lá do lado de fora. Deve ser por isso que o despertador ainda não tocou. Um sonho, isto tudo é um sonho e nada existe. Nenhuma destas letras, nenhuma destas palavras, nada disto do que penso dentro de um outro pensamento. Não existe. Não existe? Não vai ter fim...

segunda-feira, 24 de março de 2008

Gotas

Milhares, milhões, milhares de milhões de gotas de água e uma espécie de chuva que quase molha. Horas e horas, dias, meses e anos regados a água caida do céu.

Depressa se constroi a barragem que devagar encheu. Falta sempre qualquer coisa... Faltou espaço desta vez. Não transborda, rebenta. Pedras, cimento e peixes que por uns segundos sabem ser também pássaros sem asas nem penas.

Secam as nuvens e volta a brilhar o sol. Brilhará depois a lua de noite e a terra dará mais uma volta em torno de si mesma.

Talvez amanhã volte a chover. Talvez um dia os peixes voltem a voar.