E todos os dias havia mais uns metros de calçada para polir. Gastavam-se as solas dia após dia ao mesmo tempo que o ar salgado enchia o peito.
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
Radar
Que somos nós? Navios que passam um pelo outro na noite,
Cada um a vida das linhas das vigias iluminadas
E cada um sabendo do outro só que há vida lá dentro e mais nada.
Navios que se afastam ponteados de luz na treva,
Cada um indeciso diminuindo para cada lado do negro
Tudo mais é a noite calada e o frio que sobe do mar.
Cada um a vida das linhas das vigias iluminadas
E cada um sabendo do outro só que há vida lá dentro e mais nada.
Navios que se afastam ponteados de luz na treva,
Cada um indeciso diminuindo para cada lado do negro
Tudo mais é a noite calada e o frio que sobe do mar.
Álvaro de Campos
domingo, 11 de janeiro de 2009
Dantes
quantos "dantes", quantos? quando a escola era ali ao lado e os postes de telefone ainda não tinham sido plantados. ou então, quando ali em baixo, junto ao rio, o ar era diferente, mais leve... dantes. quando os comboios eram movidos a pouco mais que vapor de água e até se podiam apanhar em andamento. e os dias em que à porta de uma qualquer tabacaria também nossa se ouvia um "Adeus ó Esteves!" -todos tivemos um Esteves num dantes qualquer da nossa vida-.
e dantes, quando um quilo de arroz custava não sei quanto, as madrugadas dormiam-se num pesado sono de inverno.
e dantes, quando um quilo de arroz custava não sei quanto, as madrugadas dormiam-se num pesado sono de inverno.
"mas tudo isso passou
foi o tempo que nos matou."
foi o tempo que nos matou."
da última batida
A anestesia fraca faz tremer o corpo. Bisturi na mão. Copo na outra. Seis vidas mais uma, como os gatos.
Afogamento na piscina.
Atropelamento.
Overdose.
Acidente de carro.
Tiro nas costas.
Queda de ponte.
Seis mais uma, como os gatos. Bisturi na mão, lâmina no peito, mão no coração e à sétima é de vez.
Afogamento na piscina.
Atropelamento.
Overdose.
Acidente de carro.
Tiro nas costas.
Queda de ponte.
Seis mais uma, como os gatos. Bisturi na mão, lâmina no peito, mão no coração e à sétima é de vez.
sábado, 10 de janeiro de 2009
fm...
"Tolerância! Nós agora somos todos muito tolerantes... Cada um tem a sua liberdade, todos podemos fazer tudo -ou quase tudo- sem sermos incomodados... Interessa lá ser pobre ou rico... Com isto da tolerância agora... Temos é que ser tolerantes... E se há gente pobre a dormir debaixo das pontes não importa -tolerância- não os vamos incomodar, afinal os ricos também o podem fazer, têm liberdade para isso... É a igualdade de oportunidades..."
José Mário Branco
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
Flight lesson # 2
E se a fome for muita e a escolha recair entre um pedaço de pão e um prato de sopa ou uns sapatos escolhe os sapatos pois o pão e a sopa acalmam o vazio do estomâgo mas logo acabam e descalço no meio da neve e do gelo não podes ir em busca de mais comida e depressa acabarás por morrer, com os sapatos nos pés podes.
sábado, 3 de janeiro de 2009
Meias palavras
Ouve-se daqui as vozes na casa ao lado. Caem pelo tecto oco -que agora até os tectos são falsos-. Caem as palavras e uns sons de xilofone velho, mais o leve bater de chinelos no corredor que leva da varanda ao quarto.
Numa casa aqui ao lado. Sempre ao lado e tudo deixa de fazer sentido se é que é suposto haver algum em tudo isto que é a coisa a que se deu o nome de vida. Ou vidinha, que um diminuitivo fica sempre bem...
Depois, um pouco mais tarde, pego nas letras e junto-as todas. Faço palavras e deixo as frases de parte que o sentido é sempre uma coisa muito abstracta e do lado de fora nada soa como no lado de dentro -e estas coisas são já divagações estranhas aos crocodilos que caem de paraquedas em plena Patagónia- como tudo o que é visto pelo lado errado da folha de papel.
O chá sabe a verde e mel. Sabe a maçãs e canela. Sabe a tudo e a nada e os espelhos reflectem coisas.
E se é possível que haja gémeos diferentes, saidos da mesma mãe à mesma hora mais minuto menos minuto -um preto e outro branco, ou negro e mais clarinho que isto são só palavras- é para mim também possível uma espécie de contrário.
Na rua não faz sol nem frio nem chuva nem vento nem luar nem nada. Pelo menos hoje e agora que escrevo.
Numa casa aqui ao lado. Sempre ao lado e tudo deixa de fazer sentido se é que é suposto haver algum em tudo isto que é a coisa a que se deu o nome de vida. Ou vidinha, que um diminuitivo fica sempre bem...
Depois, um pouco mais tarde, pego nas letras e junto-as todas. Faço palavras e deixo as frases de parte que o sentido é sempre uma coisa muito abstracta e do lado de fora nada soa como no lado de dentro -e estas coisas são já divagações estranhas aos crocodilos que caem de paraquedas em plena Patagónia- como tudo o que é visto pelo lado errado da folha de papel.
O chá sabe a verde e mel. Sabe a maçãs e canela. Sabe a tudo e a nada e os espelhos reflectem coisas.
E se é possível que haja gémeos diferentes, saidos da mesma mãe à mesma hora mais minuto menos minuto -um preto e outro branco, ou negro e mais clarinho que isto são só palavras- é para mim também possível uma espécie de contrário.
Na rua não faz sol nem frio nem chuva nem vento nem luar nem nada. Pelo menos hoje e agora que escrevo.
quinta-feira, 1 de janeiro de 2009
Redundante
E se tivesses de escolher entre uma garrafa de ácido derramada sobre a pele ou outra de álcool vertida sobre uma qualquer ferida aberta?
terça-feira, 30 de dezembro de 2008
Dias cicatriz
Dos dias que ficam marcados no calendário como na pele a cicatriz de cor diferente para lembrar que a ferida existiu. Dias cicatriz, como a que tenho na mão. Como os dias em que a noite chega sem a hora de dormir mesmo que o corpo anseie o descanso. Dias em que na mesa os bancos vazios ganham outra cor pela falta dela mesma. Dias em que se é nada sobre um passeio sujo. Dias em que a areia molha os pés mas nada se sente. Dias assim, sem fim, nem começo, nem sentido, nem nada.