sábado, 31 de janeiro de 2009

do amarelo das caras

Boca e olhos e tudo mais dentro de um sonho. Vozes e risos dignos de um qualquer prémio nobel ainda por inventar. Dos dias, ficam as horas presas ao papel de parede com pionés ferrugentos, à espera de partir, só isso. Partir como as pedras da calçada nas mãos de um qualquer artista incógnito, pintor de ruas mais apreciadas pelas solas de sapatos do que por olhos. É uma pena que andem tantos fechados, mesmo que aparentemente abertos.

(Tenta dormir uma noite de olhos abertos e conta depois da tua manhã. Conta do que viste. Talvez um reino de batas brancas de gotas em punho. Talvez isso, talvez nada.)

Gritam-me aos ouvidos. Gritos sem voz, seja lá o que isso for, ensurdecem na mesma.

-E o vidro é castanho porquê?

"Se calhar nem temos o direito de...", se calhar até não, mas o mundo perfeito é ali ao virar da esquina, onde toda a gente estudou para tudo e nunca um livro foi trocado por uma garrafa. Pena que daqui ao virar da esquina seja mais longe do que o espaço que os olhos mostram ser daqui ao virar da esquina.

Enquanto tudo, o sol teima em não aparecer, continua a haver café com leite e pão com manteiga às quatro da tarde num reino não muito longe de nós e o relógio da estação continua preso num tempo que é de ninguém. Mesmo assim, certo, duas vezes por dia...

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

coiso

"fechas a porta à chave com duas voltas e sais". mas a casa é grande. grande demais. e no silêncio imenso que deixas para lá dos passos a velha aranha conversa sem tempo com a formiga pequena. baixo. quase em surdina. não se pode assustar a mosca almoço. da aranha ou do camaleão. vida tão reles a da mosca, a poisar de merda em merda, dia após dia, sem rumo aparente. ainda foge da mão humana mas voa alegremente em direcção à teia sem evitar o olhar do bicho verde. a porta está fechada e daqui a pouco, a casa mais vazia.

sábado, 24 de janeiro de 2009

pfff

Cascas de noz num mar imenso à descoberta de novos lugares, rumo ao fim do mundo que não existia -as rodas não têm fim. nem começo-. Nem antípodas, nem adamastor, só o mar a frente e a terra longe mais o resto que por lá havia. A gente de muita coragem em busca da glória.

A coragem do El-Rei sentado no trono de veludo. Ontem, como hoje, mesmo sem Rei. Mudam os nomes e os lugares onde se sentam, que agora também já temos cadeiras suecas a preços baixos, não muito longe de Belém. Da nossa Belém, ali ao pé do tejo, sem fome, nem mortos a tiro pela madrugada.

É uma pena ver as figurinhas de papel todas amarrotadas dentro de uma caixa vazia. Tenho esperança mesmo assim. O benfica jogou ontem e amanhã não é dia de trabalho, não se tem falado de dores de barriga e com este tempo não há muito que fazer, também não se consta que haja engarrafamentos ao domingo. Que sejam muitos, vão pela manhã, bem cedo. Não me esperem. Vou lá ter...

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

#28

E todos os dias havia mais uns metros de calçada para polir. Gastavam-se as solas dia após dia ao mesmo tempo que o ar salgado enchia o peito.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Radar

Que somos nós? Navios que passam um pelo outro na noite,
Cada um a vida das linhas das vigias iluminadas
E cada um sabendo do outro só que há vida lá dentro e mais nada.
Navios que se afastam ponteados de luz na treva,
Cada um indeciso diminuindo para cada lado do negro
Tudo mais é a noite calada e o frio que sobe do mar.

Álvaro de Campos

domingo, 11 de janeiro de 2009

Dantes

quantos "dantes", quantos? quando a escola era ali ao lado e os postes de telefone ainda não tinham sido plantados. ou então, quando ali em baixo, junto ao rio, o ar era diferente, mais leve... dantes. quando os comboios eram movidos a pouco mais que vapor de água e até se podiam apanhar em andamento. e os dias em que à porta de uma qualquer tabacaria também nossa se ouvia um "Adeus ó Esteves!" -todos tivemos um Esteves num dantes qualquer da nossa vida-.

e dantes, quando um quilo de arroz custava não sei quanto, as madrugadas dormiam-se num pesado sono de inverno.

"mas tudo isso passou
foi o tempo que nos matou."

da última batida

A anestesia fraca faz tremer o corpo. Bisturi na mão. Copo na outra. Seis vidas mais uma, como os gatos.

Afogamento na piscina.

Atropelamento.

Overdose.

Acidente de carro.

Tiro nas costas.

Queda de ponte.

Seis mais uma, como os gatos. Bisturi na mão, lâmina no peito, mão no coração e à sétima é de vez.

sábado, 10 de janeiro de 2009

fm...

"Tolerância! Nós agora somos todos muito tolerantes... Cada um tem a sua liberdade, todos podemos fazer tudo -ou quase tudo- sem sermos incomodados... Interessa lá ser pobre ou rico... Com isto da tolerância agora... Temos é que ser tolerantes... E se há gente pobre a dormir debaixo das pontes não importa -tolerância- não os vamos incomodar, afinal os ricos também o podem fazer, têm liberdade para isso... É a igualdade de oportunidades..."

José Mário Branco

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Flight lesson # 2

E se a fome for muita e a escolha recair entre um pedaço de pão e um prato de sopa ou uns sapatos escolhe os sapatos pois o pão e a sopa acalmam o vazio do estomâgo mas logo acabam e descalço no meio da neve e do gelo não podes ir em busca de mais comida e depressa acabarás por morrer, com os sapatos nos pés podes.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Meias palavras

Ouve-se daqui as vozes na casa ao lado. Caem pelo tecto oco -que agora até os tectos são falsos-. Caem as palavras e uns sons de xilofone velho, mais o leve bater de chinelos no corredor que leva da varanda ao quarto.

Numa casa aqui ao lado. Sempre ao lado e tudo deixa de fazer sentido se é que é suposto haver algum em tudo isto que é a coisa a que se deu o nome de vida. Ou vidinha, que um diminuitivo fica sempre bem...

Depois, um pouco mais tarde, pego nas letras e junto-as todas. Faço palavras e deixo as frases de parte que o sentido é sempre uma coisa muito abstracta e do lado de fora nada soa como no lado de dentro -e estas coisas são já divagações estranhas aos crocodilos que caem de paraquedas em plena Patagónia- como tudo o que é visto pelo lado errado da folha de papel.

O chá sabe a verde e mel. Sabe a maçãs e canela. Sabe a tudo e a nada e os espelhos reflectem coisas.

E se é possível que haja gémeos diferentes, saidos da mesma mãe à mesma hora mais minuto menos minuto -um preto e outro branco, ou negro e mais clarinho que isto são só palavras- é para mim também possível uma espécie de contrário.

Na rua não faz sol nem frio nem chuva nem vento nem luar nem nada. Pelo menos hoje e agora que escrevo.