domingo, 4 de novembro de 2007

Algo

Uma espécie de maneira de dizer palavras a que alguém chamou lingua. É bom (re)encontrar pessoas que falam a mesma.

- E então aquelas pessoas sonhavam e a nave mexia-se com a energia libertada pelos seus pensamentos, através dos tais psitrões.
- Uma nave movida a sonhos?
- Isso, é isso.
- :)

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Hoje

Milhares de pessoas rumando a lugares próximos, cidades afastadas, aldeias distantes... Todas numa correria infernal para ver pedras brancas ou negras, até mesmo casas, campas e jazingos e montes de terra. E lá vão elas e levam as flores e gastam o dinheiro e acendem as velas e queimam a cera e observam as fotos meio amarelas para se lembrarem das caras que o tempo lhes foi apagando da memória.

Terra e pó, nada mais que isso, lá, no fim de tudo. E o que fica é tudo o resto, ficam as palavras e os olhares e as casas cor-de-rosa e o cheiro a café pela manhã e os frascos de doce com canela. Para lá do que existe, para lá das pedras frias que são nada, resiste o ser em quem o lembra, talvez por nunca ter esquecido.

Cai a noite e céu reflecte a luz que ainda vai ardendo em copos de plástico vermelho, murcham as flores. Para o ano voltarão sem saber bem porquê. Não vou, não preciso. As flores dão-se em vida...

#10

-Porque é que se morre?
-Talvez por não se sonhar bastante...

Fernado Pessoa, O Marinheiro

Upstairs

domingo, 28 de outubro de 2007

Perspectiva

-Sobe um pouco, olha e vê se encontras.
Subo e olho, olho mas não encontro.
-São todos iguais.
-Ah! São nada.
-Sobe tu.
-Pois são...

sábado, 27 de outubro de 2007

Escolhas

Chega uma hora em que a confusão é tão grande que já ninguém sabe bem quem é o que é ou ou que anda a fazer. Chega o dia em que a confusão é ainda maior. Chega a vez em que a teimosia dos actos leva a um arrependimento que nem sequer o é. E em dias em que se perde mais uma vida mais ou menos próxima a terra gira na mesma e nada para. Segue tudo no seu ritmo incerto até ao infinito dos dias.

Entre o que achava que devia fazer e o que queria ou não fazer escolhi o não querer. Agora a confusão é grande. Já passou e a vida segue algures por ai. Entre as escolhas de pessoas não muito normais que confundem as ideias que surgem entre dias claros e escuros ao mesmo tempo.

De fora

Cai a noite e e lua fica lá no alto a brilhar que nem tola. Há entre dois lados de dentro um lado de fora onde fico, escassos metros e só o céu negro por cima, vê-se a lua lá do alto, cai ar fresco naquele espaço.

Seguem as canções. Novas, velhas, algumas já gastas de tanto cantadas, de tanto ouvidas, saem palavras, desfazem-se conversas num abrir e fechar de olhos. Não chove e há água no chão.

Há a distância fisica, só essa, há um entender maior que surge entre copos de plástico que vão ficando vazios e há o saber de ser, o saber que se é. O poder juntar passados e presentes e vê-los literalmente de mão dada a correr no meio de caras e corpos espalhados num canto junto ao rio.

Entretanto os outros olham e não vêm, e se vêm não percebem e acho na sua pequenez a grandeza de poucos, meia dúzia de irredutiveis que ainda vão acreditando que o amanhã não existe e os meteoritos caem do céu a toda a hora.

I

"But they don’t know how really feels
They’re just here on holidays
Like dummies filling landscapes
How could they see you cry?"

David Fonseca, Superstars II

II

"When you held me,
we fought windmills together"

The Gift, Pure

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

mANTA

Vou pegar na seda da teia, no algodão dos sorrisos e nas cores do arco-irís e fazer uma manta daquelas bem quentes. Uma manta grande e colorida para que me possa enrolar enquanto espero que o tal comboio passe novamente pela estação.

Hei-de esperar ali no canto onde passe pouca gente e sejam não muitas as vozes que dispersam a atenção do olhar para o nada. Aquele nada que está ali mesmo na parede pintada de uma cor que já ninguém sabe dizer qual. Olho para o infinito que pode haver no tal nada e imagino muito mais do que pode ser imaginado pelo comum dos mortais que habitam o lado de dentro do bolo que é a vida.

Vou adormecer, acho, hei-de acordar a tempo, espero. Ou então pode ser que me acordem a tempo de entrar na carruagem...